Ícaro Technologies

Integração de Soluções de Gerência

Setembro 2008

CMMI para integradores: mais qualidade. E mais desconfiança

Os integradores usam o CMMI nas fábricas de software, para desenvolver sistemas. Os diretores de informática exigem que o integrador tenha o certificado do CMMI para desenvolver sistemas. No fim, todo mundo acha que o CMMI só serve para desenvolver sistemas. E usam a certificação para vender projetos. Mas o CMMI serve para melhorar qualquer processo, da construção de um avião à construção de um porta-retratos. Dois integradores descobriram isso: a Itautec e a Ícaro. Nenhum cliente pediu, mas eles adotaram o CMMI para melhorar os serviços de integração de sistemas. Nem todo cliente entende a iniciativa.

Ícaro Technologies - Kleber Stroeh

Kleber Stroeh adaptou a metodologia do CMMI para usar nos projetos de integração da Ícaro. Agora os técnicos da Ícaro seguem os mesmos passos toda vez que integram hardware e software. Alguns CIOs não acreditam nessa fórmula. Sidinei Righini, diretor de informática da Aché Laboratórios, não vê como isso pode agregar valor. “Parece um argumento marqueteiro, para criar demanda.”

O CMMI, diz Sidinei, significa que Kleber montou um processo repetitivo no qual as pessoas, sejam quais forem, são obrigadas a seguir uma seqüência de passos, todos documentados. Kleber deve ter adicionado um ou dois passos à metodologia do CMMI para usar na integração de sistemas — pensa Sidinei. “No fundo”, ele diz, “não enxergo os benefícios que isso trará para mim.” Outros executivos de TI tendem a compartilhar da opinião de Sidinei.

Modismos de mercado

CMMI vem de capability maturity model integrated; nasceu de um modelo de qualidade (o CMM) criado em 1991 para o desenvolvimento de software, por engenheiros da universidade Carnegie Mellon. O CMM fez sucesso. Logo as empresas usavam variações do CMM para desenvolver produtos (SECM), para comprar produtos (SACMM), para selecionar fornecedores — com isso, tinham de passar por várias certificações diferentes. Em janeiro de 2002, os engenheiros da Carnegie Mellon decidiram simplificar o processo. Integraram as variações do CMM num só modelo, o CMMI. Até hoje, no entanto, as pessoas atrelam o CMMI ao desenvolvimento de software, explica Carlos Alberto Caram, sócio da ISD Brasil, uma consultoria que certifica empresas em CMMI. “Até quem aplica a certificação tem uma imagem errada do CMMI.”

Sidinei, da Aché, uma vez, contratou uma fábrica de software certificada em CMMI para desenvolver um aplicativo de “média complexidade” para a área administrativa. As empresas com CMMI são de 30% a 70% mais caras, dependendo no nível da certificação. Sidinei pagou mais pelo projeto só para ver qual era o diferencial do CMMI.

Na prática, diz Caram, quem usa o CMMI são fábricas de software e empresas que desenvolvem software. Elas fazem isso porque os diretores de informática pedem o certificado. Muitas delas correm atrás do certificado porque os clientes pedem um certificado, diz Caram; na verdade, elas não têm a vontade de melhorar por conta própria. E mais: é difícil conseguir um certificado CMMI; por isso as empresas tiram um certificado para as áreas mais simples. Escolhem, por exemplo, a menor fábrica de software, ou uma pequena área dentro da fábrica de software. “A empresa tem 3 mil pessoas”, diz Caram. “Quando a gente vê, ela foi certificada na fábrica de software do Amazonas.”

Quando Sidinei contratou a fábrica de software certificada em CMMI, não perguntou onde a fábrica era certificada. Não sabia dessa partição do CMMI. O mesmo aconteceu com outro diretor de informática: a fábrica de software era conhecida; ele não detalhou a certificação. Os projetos atrasaram, o orçamento estourou. “Entrei no modismo”, diz Sidinei, “e quebrei a cara.” Quanto aos certificados, Sidinei agora é cético.

Uma nova visão

A primeira vez que Kleber ouviu falar do CMMI foi em 1997, quando criou a Ícaro. Naquele tempo, a Ícaro era uma fábrica de software, como a Everis, a IBM, a Stefanini; e Kleber, como os outros empresários, usava os conceitos do CMMI para desenvolver sistemas. CMMI era só uma referência. Ele usou o CMMI dessa forma por uns cincos anos.

Com o passar do tempo, a Ícaro deixou de ser uma fábrica de software e virou um integrador. “Pegamos um produto de mercado e agregamos nossos próprios produtos para entregar uma solução ao cliente.” A Ícaro vende sistemas de gestão de rede. No final de 2001, Kleber ganhou um desafio: instalar um sistema de gestão de falhas para a AT&T no Brasil, na Argentina, no Chile, na Colômbia e no Peru; além disso, treinar a equipe da matriz da AT&T, nos Estados Unidos. Kleber já tinha instalado o sistema de gestão de rede em outros clientes internacionais, inclusive na Bélgica. Mas o projeto da AT&T era o primeiro a incluir cinco países. Como gerenciar um projeto tão grande, com tantas pessoas?

Kleber precisava de um modelo de gestão. Estudou algumas metodologias, da gestão de projetos do PMI à gestão de qualidade do CMMI.

O CMMI é um guia; com ele, uma empresa define os processos e melhora a qualidade. Serve para a construção de uma aeronave, de um estádio, de um software. “O CMMI te força a escrever os procedimentos”, diz Wilton Ruas, diretor de desenvolvimento de produtos da Itautec. Outras metodologias, como o PMI, ajudam a empresa a tratar cada projeto. “Já o CMMI é um modelo de qualidade”, diz Wilton. Com ele, a empresa conhece, documenta e mede os processos.

Kleber relembrou do tempo que usava o CMMI e aplicou os conceitos no projeto da AT&T. Quando terminou o projeto, percebeu que os conceitos do CMMI não se referem à tecnologia. “O CMMI fala de gestão de requisitos, de configuração, de risco, de estimativa, de controle e da avaliação da qualidade com auditoria. Qualquer projeto se beneficia dessas práticas.”

O ovo e o cacarejo

Em 2005, Kleber começou uma reforma nos processos da Ícaro. “Já tínhamos processos, mas decidimos usar o CMMI.” Wilton, da Itautec, também reformou os processos da Itautec a partir de 2006. Cada um deles contratou uma consultoria. Primeiro, reescreveram os processos seguindo o CMMI nível 2. Wilton e Kleber dizem: nenhum cliente pediu a certificação CMMI para os projetos de integração. “A gente fez isso pelo ganho interno de qualidade.”

Hoje, o conceito do CMMI faz parte da cultura da Ícaro e da Itautec. Os dois afirmam: não existe projeto com CMMI e projeto sem CMMI. Todos são com CMMI.

Na faculdade, Kleber ouvia um professor dizer: a melhor definição de qualidade é adequação. Eu entreguei o que o cliente precisa, com o preço que ele pode pagar? Se o projeto está caro demais, diz Kleber, significa que a empresa só olhou para o CMMI e não olhou para o mercado e para o seu negócio. “Se o projeto fica caro demais, significa que o modelo do processo está errado.” Dificilmente Kleber perde projetos por causa dos custos.

Em 2006, Kleber recebeu uma proposta de seus parceiros na Bélgica. Eles acompanharam os trabalhos para a AT&T. A forma como a Ícaro usava o CMMI era incomum até mesmo para os integradores europeus. O CMMI, pensaram os parceiros belgas, fazia alguma diferença. Os belgas propuseram uma sociedade.

Kleber também ouviu alguns comentários de clientes. Um executivo da Telefônica mandou um email dizendo que o projeto realizado pela Ícaro recebeu a nota máxima na avaliação da Telefônica. Outros clientes sempre perguntam: como eu faço para aplicar metodologia aos serviços da TI e aos serviços de outros fornecedores? Para Kleber, o segredo é exigir metodologia já nos requisitos do projeto.

Até agora, nenhum diretor de informática exigiu, numa concorrência, o certificado CMMI para integradores de sistemas. Segundo Carlos Caram, da ISD Brasil, poucos integradores aplicam o CMMI na empresa inteira. Com o tempo, diz Kleber, os diretores de informática devem mudar de idéia. O CMMI deve virar diferencial para integrador também.

Numa reunião com a equipe, ocorrida em agosto, Kleber disse aos funcionários que a Ícaro põe muitos ovos e cacareja pouco. A Ícaro faz algo diferente. Kleber resolveu mostrar isso ao mercado. E, também em agosto, passou a ter mais um motivo para “cacarejar”: a Ícaro ganhou o prêmio Destaque do Ano do Anuário Informática Hoje, entre os integradores de pequeno porte, por seu desempenho econômicofinanceiro em 2007.

No ano passado, Kleber chamou a consultoria de volta para adequar os processos da Ícaro para o CMMI nível 3. Os processos já foram ajustados para o novo nível de certificação, e agora Kleber só precisa fazer com que todos os funcionários tenham os processos na ponta da língua. Dessa vez, em vez de só seguir os conceitos do CMMI, Kleber vai tirar um certificado válido para a área de integração. Em 2009, ele passará pela auditoria. “O objetivo nunca foi o selo”, diz Kleber. “Mas resolvi mostrar o que tenho.”

Fonte: Informática Hoje

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